sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

CORRIDA DE SÃO SILVESTRE: UM POUCO DE HISTÓRIA


Desde o dia 31 de dezembro de 1925, quando Alfredo Gomes cruzou a linha de chegada em primeiro lugar, a história se repete. Idealizada pelo jornalista Cásper Líbero, a Corrida de São Silvestre reúne tradição, curiosidades e heróis em seus mais de oitenta anos de história. Oitenta anos de disputas acirradas, de vitórias apertadas, de arrancadas emocionantes, de muitas lágrimas, alegrias, frustrações e felicidade sem igual.


A corrida de São Silvestre é por tradição a maior prova pedestre da América Latina. Milhares de corredores de vários países desembarcam no Brasil em busca da glória de “vencer” a São Silvestre.


E vencer, aqui, significa coisas muito distintas para os participantes: desde o desafio de apenas se completar o percurso, até enfrentar a temível “subida da Brigadeiro” ou mesmo alcançar o recorde da distância nas ruas de São Paulo e os louros da vitória.


A prova já apresentou ao longo de sua história os mais diferentes traçados e distâncias, até a sua oficialização, em 1991, de seus atuais 15 km regulamentares.


São muitos os heróicos atletas que desfilaram seus talentos na São Silvestre nesses mais de oitenta anos de história. Emil Zatopek, o super atleta da antiga Tchecoslováquia que atendia pela alcunha de “a locomotiva humana”, vencedor da prova em 1953; Frank Shorter, o maratonista olímpico norte-americano, laureado em 1970; Carlos Lopes, português ex-detentor da melhor marca mundial na maratona, bi-campeão em 1982/84; o mexicano Arturo Barrios, também duas vezes campeão, em 1990/91, na época recordista mundial dos 10.000m; Gaston Roelants, campeão olímpico nos 3000m c / obstáculos, quatro vezes campeão (1964/65/67/68); Victor Mora, colombiano e também quatro vezes campeão (1972/73/75/81), em uma época romântica em que a prova era disputada às 23:00 h, praticamente encerrando mais um ano e brindando o ano porvir. Muitos fogos, muita festa nesses tempos que não voltam mais!


Além desses, o baixinho equatoriano Rolando Vera, o único tetracampeão consecutivo da prova (1986/87/88/89), verdadeiro herói em seu país e que consegui a façanha de vencer a última prova disputada à noite (1988) e a primeira a ser disputa durante o dia (1989); e o maior de todos, o queniano Paul Tergat, cinco vezes campeão e recordista do percurso com o tempo de 43min12seg.


Dentre as mulheres, Rosa Mota, a portuguesa, é a Rainha do Asfalto! Nenhum homem ainda igualou o seu recorde de seis vitórias consecutivas! Algum candidato se habilita?


Dentre os nossos corredores, destacamos a inesquecível e emocionante atuação de José João da Silva, vencedor em 1980, quebrando um jejum de 34 anos sem vitórias nacionais (a última vitória de um brasileiro havia sido de Sebastião Alves Monteiro, bi em 1945/46). José João repetiria o feito em 1985. Outros corredores como Marilson Gomes dos Santos e Ronaldo da Costa são dois nomes de peso que também sentiram o gosto da vitória e a consagração em 31 de dezembro.


Por outro lado, atletas de nome já sucumbiram no asfalto de São Paulo: Vladimir Kutz, o atleta da ex-União Soviética, recordista mundial e campeão olímpico, foi apenas o oitavo colocado em 1957; Lasse Viren, o finlandês campeão olímpico dos 5000 e 10000m em Munique, 1972, apenas o quinto colocado na prova realizada em 31 de dezembro de 1973; e talvez o maior dos fiascos, o queniano Henry Rono que, em 1978, recordista mundial do 10000m, simplesmente ao passar em frente ao hotel em que se hospedava, abandonou a prova e foi para o seu quarto. Vergonhoso!


Muitos duelos inesquecíveis já foram travados nessa prova por bravos atletas. Em dois momentos recentes, o queniano Simon Chemwoyo foi o protagonista. Em 1992, após correr a ladeira da Avenida Brigadeiro Luis Antonio lado-a-lado com o bicampeão e favorito Arturo Barrios, ao adentrarem na Paulista, o queniano disparou em um sprint inacreditável, deixando para trás o esgotado mexicano e as suas memoráveis caretas.


Em 1993, Chemwoyo era o favorito, mas Fita Bayesa, por um erro imperdoável, não vence a prova. Bayesa, que pela primeira vez participava da prova, estava a alguns metros à frente do queniano, porém, já na Paulista, empolgado com a possibilidade da vitória iminente, não atendeu a solicitação de um staff que, desesperadamente, indicava-lhe o caminho certo. O atleta etíope, no ardor da disputa e preocupado com a aproximação de Chemwoyo, atabalhoado, seguiu pelo local de saída das motocicletas dos batedores. Ao perceber o engano, tentou voltar, saltando sobre a grade de proteção, mas já era tarde: Chemwoyo o havia ultrapassado e cruzava tranqüilamente a linha de chegada.


Se a São Silvestre até os dias atuais ainda não é um exemplo de organização, compensa pela tradição. São vinte mil corredores apaixonados pela disputa! E que, pelo jeito, não vão abandonar nunca a São Silvestre!


Para você que estará mais uma vez disputando a prova no derradeiro dia de 2008, desejamos muito sucesso. Saiba que você é parte indissociável da história de uma das maiores corridas de rua do mundo! Vale à pena a sua dedicação, perseverança e disposição para mais uma São Silvestre. Boa sorte a todos!


Prof. Esp. Marcelo Augusti
Pós-graduado em Fisiologia do Exercício e Treinamento Esportivo pela Unifesp
Consultor em Preparação Física da Revista Contra-Relógio
Colaborador da Revista Spiridon (Portugal)
Professor do Curso de Extensão Universitária em Preparação de Corrida de Fundo da UniFMU

Nenhum comentário: